sabe a história da casa que pega fogo? não? então, a casa pega fogo. e lógico, prejuízo, não ter onde morar. mas, além de tudo, imagine que de repente todas as suas lembranças físicas podem virar cinzas. pedacinhos pequenos e pretos de alguma coisa que não vai existir nunca mais: fotos, cartas, bilhetes, pedacinhos de embalagens, um móvel antigo, roupas.essas provas físicas que reavivam a incrível capacidade seletiva de dizer o que fica registrado ou não.
a casa que queima, além de tudo, é uma oportunidade de uma nova chance. porque junto com as coisas boas vão também as ruins. é o branco novo. e memória, sem provas físicas, podem ser contestadas.
cortar o cabelo, dormir e acordar, começar o dia seguinte, fechar capítulos e ciclos. dividir o passado, colocar ele em caixas - algumas que não se quer mais abrir jamais. a vida é um jogo de esquecer e lembrar. a vontade de esquecer às vezes impossibilitada por essas coisas que pulam no nosso caminho de vez em quando. o caos agora fruto de lembranças. a edição das recordações ajudando ou atrapalhando.
a casa queimando, as cinzas que sobrarem são só mudanças. dessas que a gente não consegue fazer qualquer dia, dessas que exigem que a gente espalhe álcool e risque fósforos. porque a gente se apega também aquilo que deve ser esquecido como se apega a um móvel cafona, destoando do resto, desordenando a harmonia entre as cores.
o cuidado porém é que abrir mão de tudo significa também estar desabrigado, ter que construir tudo de novo.
mas que seja certo dessa vez.
agosto 13, 2006
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário