quando eu vinha, no caminho para casa, depois de tudo, pensei em começar dizendo 'confortável solidão'. mas não sei até que ponto é um grande alívio ou um fardo. leve ou pesado? é um ponto estranho esse. você diz que agora é a hora mas a cabeça anda e anda em círculos e você fica lá, no mesmo lugar. as idéias mais absurdas voltam lá daquele canto esquecido e começam a fazer sentido. ao mesmo tempo, as coisas mais interessantes que eu já fiz vieram de idéias absurdas que conseguiram escapar e cresceram. até que passaram a fazer sentido e viraram verdade.
parece, às vezes, que o difícil não é nem conseguir fazer sentido. é não deixar a censura matar aquilo que ainda não se sabe. nesse estado, então, ótimo: confortável solidão. como é confortável não se mexer, não levantar de manhã cedo, não calçar os pés e não dar o primeiro passo. assim, no mesmo sentido, como é fácil se importar. com milhares de coisas, com aquilo que não deveria importar mais. confortável realmente é não distrair o pensamento. é ficar obstinado naquelas coisas antigas e meter o dedo na ferida. a dor é conseqüência desse alívio.
eu falo isso porque deveria ter deixado de lado milhares de coisas que não importam e começado com o novo. e mais uma vez e outra vez e outra. as coisas estão despencando, sabe? é só olhar ao redor. tudo. ainda entra água pela mesma fresta, ainda tem um lençol pendurado na janela. as coisas ainda estão reviradas por todos os cantos esperando o próximo domingo ou sábado ou feriado. eu estou ocupado o tempo todo com coisas que nunca vão pra frente.
confortável é perigoso, é como inércia. as coisas que eu pensei no caminho mudaram completamente no momento que acendeu essa luz aqui. e no meio disso tudo, ainda não sei. como que paralisado pelo medo.
junho 24, 2006
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